quem somos

de onde viemos, para onde vamos [isso não sabemos]

Foi assim, há muitos anos, praticamente no tempo das sufragistas [mentira, não somos tão velhas] resolvemos fazer um fanzine. Era um fanzine xerocado feito com colagem, porque na época era desse jeito, nem internet direito tinha [verdade, somos realmente vintage].

Queríamos falar sobre como era louco, foda, opressivo, gostoso ser mulher, e queríamos escrever o que desse na telha, coisas que jamais leríamos em nenhuma revista feminina. Em 1997, o feminismo era uma coisa bem fora de moda, as nossas inspirações vinham do rock porque, fora desse mundo, tudo era pós-yuppie-vamos-dar-certo-na-vida.
Ou seja, um puta saco pra gente, que tinha sido criada no punk-rock.

A zine e o nome surgiram num bar em São Paulo antes de um show do Mundo Livre S.A. Uma piada com a piada dos dois neurônios, na concordância errada porque mulher não acerta em nada. O “zero” foi porque, quando estávamos fazendo a capa do primeiro fanzine, recortamos um número zero e colamos. Assim, o “Dois Neurônio” [ou “Zero Dois Neurônio”, vai do gosto do cliente] começou.

Nossa ideia apenas fazer fanzines e dar festas de lançamento. Mas acabou que escrevemos um monte de livros, tivemos uma coluna na Folha de S.Paulo, um site [pois neste meio tempo a internet explodiu], depois um blog, programa de TV, fizemos rádio, cordel no Cariri, camisetas. A gente brincava de planos de dominação mundial infalíveis e, claro, todos eles deram errado. Mas foi ao som de “Loser”, do Beck. Não podemos reclamar, né?

Até que um dia, paramos com tudo. Quem já teve banda [sim, sempre nos consideramos uma banda] sabe como é. Tem horas que é preciso dinamitar tudo.

Foi ótimo e também ficou evidente, mais uma fez, como somos péssimas de timing. Fomos feministas quando o feminismo estava em baixa e, quando o feminismo ressurgiu em toda sua glória e resplendor, tínhamos chutado o balde. Mas aí pensamos, ah, deixa para a nova geração, já fizemos a nossa parte e estamos aqui muito ocupadas sendo açoitadas pela mais-valia. Agora é com elas.

Surgiram novos códigos, novas palavras, algumas estranhas para nós. Quando não tinha ninguém olhando a gente confessava baixinho que não tinha entendido que porra era aquela de sororidade. A possibilidade de voltar sempre foi meio nublada, tínhamos vontade de voltar a escrever juntas, escrever juntas sobre como continuava sendo louco, foda, opressivo, gostoso ser mulher. Mas deixávamos pra lá.

Aí veio o Brasil Feio.
Diante deste novo país fundado [oficialmente] em 2016, sacamos que só é possível sobreviver estando de volta ao front [pelo menos, no nosso caso].

Estamos aqui.

02 Neurônio é Nina Lemos, Jô Hallack e Raq Affonso. Surgiu em 1997, como fanzine. Livros: “Almanaque para Garotas Calientes”[1999], “Guia da Mulher Superior [2002]”, “Manual para moças em fúria” [2003], “Guia São Paulo-Rio de Janeiro” [2005], “Como enlouquecer seu homem (mesmo!)” [2006], “10 anos de 02 neurônio: do anonimato ao anonimato”.